O PÁSSARO DO MEL: estudos de história africana - Isabel Castro Henriques

Henriques, Isabel Castro 
- O PÁSSARO DO MEL: 
estudos de história africana
Colecção Colibri História nº 35, 
Lisboa: Colibri, 2003.
244, [1] p. ; 20 cm - Brochado.
Bibliografia, p. 231-240
Excelente exemplar.
1ª edição
€16.00
Iva e portes incluídos.

Isabel Castro Henriques, O Pássaro do Mel Estudos de
História Africana - Edições Colibri, 2003
José Capela
Em 248 páginas Isabel Castro Henriques reune vários estudos de História africana ilustrados por uma iconografia a propósito. Tudo subordinado ao título particularmente sugestivo e por isso mesmo sedutor de O Pássaro do Mel. Vindo de onde vem e não tendo escapado ao grande observador e relator do sudeste da África oriental que foi Frei João dos Santos, o fascínio da proposta é inevitável. O que, da
parte da autora, se manifesta na expressão do recurso ã carga simbólica do pássaro mirifico, dotando-a com a convicção manifestada de «analisar com paixão e paciência os termos de construção das civilizações africanas». Paixão e paciência, sim, dotes sem os quais o êxito da tarefa estaria gorado ã partida.
Aquilo que é aqui designado «estrutura religiosa das sociedades africanas» surge no primeiro estudo apresentado sob o título «Integração do Comércio no Religioso». Se, por um lado, as evidências fáceis de captar nos actos comerciais, dada a quantidade dos registos que até nós chegaram, e isso nomeadamente por via da participação dos europeus, privilegiam a manifestação religiosa mediata ou imediatamente associada a tais actos, por outro lado, não podemos deixar de nos interrogar sobre a pertinência do método para aproximação ã estrutura enunciada. Não pode no entanto deixar de se assinalar a constatação segundo a qual a instância religiosa é «a instância suprema das actividades sociais» a que os mesmos europeus não deixam de prestar vassalagem, meramente formal que seja.
Outra questão abordada é a da identidade do «escravo" africano.
Questão não apenas morfológica mas sobretudo epistémica. Uma vez que o termo «escravo» foi indiscriminadamente utilizado pelos ocidentais  para designar condições diferentes de dependência nas sociedades africanas, estabeleceu-se uma situação de equivocidade multiplicada pela atribuição simétrica da mesma designação tanto a situações típicas dessas mesmas sociedades africanas como ao africano sujeito ã escravidão colonial moderna. O problema não se resolverã a partir da enumeração casuística, muito menos ilustrando-a com a referência a «escravos autênticos». A questão não estarã tanto na «insuficiência da «grelha linguística europeia» como na inutilidade do recurso ã descrição
face ã carência da definição prévia. O que é um escravo «autêntico»? A questão levantada pela autora tem toda a pertinência nomeadamente quando se pretende absolver moralmente a escravidão e o trãfico de escravos, escravidão e trãfico coloniais, a coberto de situações idênticas verdadeira ou supostamente pré-existentes.
Se estes dois temas são especialmente estimulantes, outros se seguem com não menor interesse: Sal; Comércio e poder em Angola; A violência: chave da autonomia tshokwe; Tempos africanos, leituras
europeias; ltinerãrios comerciais e invenções culturais; As «fronteiras dos espíritos» na África central.