- TENTAÇÕES:
ensaio sobre Sade e Raul Brandão,
Colecção Cassiopeia nº 1,
Porto: Deriva Editores, 2009.
189, [2] p. ; 21 cm - Brochado.
Bibliografia, p. 175-189.
SINOPSE
Durante mais de dez anos desejei escrever este ensaio. Estudei Raul Brandão em Esquecer Fausto; tentei pensar um trabalho de luto incompleto pela morte de Deus, um complexo de coveiro, motivos de irrealismo; evito repetir neste ensaio o que já desenvolvi nesse livro. Noutros lugares, dispersos, publiquei outros pequenos estudos, e discuti Húmus, O Avejão, O Pobre de Pedir com alunos. Sobre Sade, escrevi muito menos: só algumas citações, insinuações, aqui e ali. Mas havia a tentação de ler Sade através de Brandão e vice-versa. Ler, especialmente, Húmus com Justine, e Diálogo entre um Padre e um Moribundo com O Avejão. Sobre esses encontros se gerou este livro. Concluindo agora estas Tentações de leitura, percebo quão evidentes elas são, e ao mesmo tempo quão improváveis. Como se este livro admitisse apenas um prefácio, um posfácio uma intuição. O resto: metodologias desmontadas de um livro a haver, estranho, impossível, evanescente, meia-dúzia de palavras apenas, ou talvez nem isso.
Bom exemplar.
1ª edição
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"Pedro Eiras, um dos mais criativos de entre os jovens ensaístas universitários, regressa neste livro a Raul Brandão, que já abordara em "Esquecer Fausto" (2005), caindo na ‘tentação’ de o comparar com Sade. Aliás, mais do que uma 'tentação', trata-se duma provocação.
Na 'Nota Introdutória', cultivando o paradoxo, Eiras reconhece que estas "tentações" de leitura são simultaneamente "evidentes" e "improváveis". De facto, não se vê bem como a dostoievskiana angústia metafísica de Raul Brandão é comparável à sistemática negação libertina da angústia metafísica em Sade, o qual reduz a literatura a uma arquivística repetição de lugares-comuns do mal relacionado com o sexo. Sem Imaginação, nem de linguagem nem de criação de personagens, meros títeres (ao contrário do genialmente imaginativo Rousseau). Sade é mais um mito literário do que um escritor. O próprio amoralismo é nele uma banalidade mecanicista, como aquele corpo-máquina de que o seu idolatrado La Mettrie falava em "L'homme-machine" (1748). E apesar de Brandão, como Sade, ceder "a códigos retóricos datados", levando esses códigos "a extremos: enumerações e repetições esmagadoras", em Raul Brandão há o voo dum imagina rio lírico pós-romântico transposto para o simbolismo e centrado no tempo narrativo, imaginário finissecular precursor do romance moderno, enquanto em Sade a escrita fecha-se na sua própria obsessão descritiva e didática do mal. Em suma: um ensaio que, pela 'improbabilidade' do seu objetivo comparatista, levanta questões teóricas muito discutíveis, por vezes até obscuras e inconsequentes, embora fascinantes, Como diz o autor: "O ensaio é estar em perigo." - Álvaro Manuel Machado (Expresso Actual, 20 de Novembro de 2010).