Agostino, Paola d';
Pereira, Miguel Serras (trad.)
- LARGO DAS NECESSIDADES,
[Lisboa]: Fenda, 2007.
59, [5] p. ; 24 cm - Brochado.
Sou de um lugar que não existe, e procuro renascer aqui, onde não nasci senão de coração. Cuido o meu amor mal-cuidado com as recusas que se transformam em barreiras e me fortalecem a alma quando não a destroem. De Hondarribia, onde a minha mãe me deixou sozinha, lembro-me de um novelo de redes para desenrolar e de um centro de cidade sombrio, de Idade Média que cheira a mar.
Gostava de ali estar, em frente à praia era já França e a montanha atrás dela era Guadalupe, com o seu nome de África e as suas ovelhas brancas.
Exemplar novo.
2ª edição
€9.00
Iva e portes incluídos.
Paola D’Agostino, Largo delle necessità, Napoli, Orientexpress, 2006, pp. 72/Largo das Necessidades, trad. de Miguel Serras Pereira, Lisboa, Fenda, 1.ª ed. 2006, 2.ª ed. 2007, pp. 58
Largo delle necessità é o primeiro romance de Paola D’Agostino, italiana residente em Portugal há vários anos. A circunstância biográfica, inscrita e transformada no texto, não deve aquiser descurada, pois determina um universo marcado pela deslocação e por uma certa leitura de Lisboa, com o Requiemde Tabucchi como possível matriz, em que a cidade, suspensa entre o real e o onírico, é vista como extrema fronteira de uma Europa que se abandona.
No entanto, Largo delle necessità não é apenas um romance italiano sobre Lisboa: o movimento mais interessante do texto é aquele que joga com a transfiguração do espaço, visível já na sedução do título. A praça lisboeta é, ao mesmo tempo, o largo do Ministério, no seu palácio cor-de-rosa, e um espaço imaginado a partir de uma moradainexistente, Largo das Necessidades 22. O mesmo desdobramento afecta toda a topografia de Lisboa que no livro aparece, oscilante entre o referencial e o simbólico. E aí reside o interesse da nomeação no texto italiano: os nomes traduzidos – as necessidades, as flores, os prazeres –, desviados, pelo efeito-tradução, parauminvestimento significativo, são os pontos de abertura figurada da paisagem lisboeta.
Abertura que representa também uma ampliação: ponto de encontro de vários percursos, a Lisboa múltipla que aqui é descrita é projectada, quase por refracção, através de territórios de um imaginário geográfico meridional – Espanha, da Andaluzia cigana à tensão basca; as ilhas, os Açores fora de um tempo que se reco nhece como português e a fluidez sem possível fixação de Cabo Verde; e a origem, Nápoles, a cidade calorosa e doente, sonhada e recusada.
O título que vincula o romance ao espaço coloca desde logo o texto sob o signo da habitação. As paisagens referidas, que intensificam o exotismo de uma Lisboa vista de fora, existem ligadas a percursos individuais, por sua vez presos a linhas (do destino, das mãos) que se cruzam no espaço de uma pensão, que é também o lugar da escrita e da linguagem: “A casa tem portas para mil adjectivos”. Desde a sua abertura, o romance alia a caracterização das personagens à construção de um espaço impossível: o espaço, ao mesmo tempo, da origem e da errância. Assim chegam à cidade as personagens enredadas em teias que constituem a verdadeira linha narrativa do romance;assim se criaa paisagem fluida da cidade em torno de um quarto de pensão, da casa onde, nas paredes votadas à destruição, são desenhados infinitos e não concretizados passos de dança por uma bailarina cansada.
Com base nessa relação constrói-se o cativante jogo de vozes de que é feito o texto: quatro personagens, quatro estações, quatro instrumentos, quatro vozes. Largo delle necessità é a história de um encontro, o texto é o espaço do cruzamento de vários monólogos. Polifónico, o romance enriquece com a multiplicação de perspectivas, compondo um painel móvel em torno de um centro impossível, a casa que não é casa e que se vai fazendo daquilo que as personagens negam de si – o passado, a entrega, a herança, a paixão consumada. O fadistarouco, o cigano e a bailarina entram na dança como actores a que a quarta figura, escritora-palhaço, dá forma na alternativa entre escrita e jogo teatral, como figuras de umainocência que se confunde com incapacidade para viver:
“– Mas tu, quando fosses grande, que gostavas de ter feito?
– Ser palhaço.
– E então, porque é que és escritora?
– Porque ainda não sou grande”.
No entanto, não se pode esquecer que os quatro são apresentados como elementos de circo – o lúdico e carnavalesco atravessam este romance como uma marca orafelliniana ora chaplinesca, explícita na tensão com o fado e a sua tristeza alheada.
Precisamente por conjugarem um imaginário teatral e tragicómico, estas personagens deixam-se ler em chave metafórica: determinante, para este aspecto, o episódio da leitura roubada do cigano Don, que descobre entre os livros do palhaço o Dom Casmurro de Machado de Assis.
A longa digressão sobre a história que o texto escondia no meio de muitas vírgulas explicita a ordem de forças aqui presente: a vida é uma ópera, dizia o velho tenor Marcolini, e o mundo um teatro criado para a execução de um libreto escrito por Deus e musicado por Satanás. Ilusão e desconcerto: a “estranha lenda” narrada por Don traz para o texto os seus dois temas centrais.
A habitação do espaço teatralizado da cidade torna-se então o eixo do romance: sem rumo, personagens fascinadas com e pela cidade, nela encontram não uma meta, não um ponto de chegada, mas a materialização da errância. Como a escrita, feita para que se possa esquecer, ou como a casa que um dia se desfaz num incêndio a que a cidade, vulnerável e friável na sua promíscua estrutura de madeira, não pode resistir. Surpreendente, a solução final, em que o quarteto se mantém na habitação sem casa do espaço da cidade, apenas dá corpo ao que ao longo do romance se intuía: a cidade idealizada não é casa, não é abrigo excepto na forma violenta e radical da errânciasem-abrigo. Sem tecto, entre ruínas, estas personagens assumem a sua entrega ao espaço livre, que em nada muda os hábitos ou gestos daqueles que apenas por eles se definem, daqueles que transportam dentro de si o incêndio: habitar a cidade é, enfim, a dissolução da habitação. Nómadas, perdidos mas incessantemente integrados num espaço que transfiguram com a sua presença, os quatro elementos do quarteto dão forma à paradoxal e dolorosa entrega ao espaço de uma cidade sobrevivente, periclitante, mas enfim aberta.
Clara Rowland
http://hdl.handle.net/10316.2/42624
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