Prazeres, Vasco
- O VOO DESORDEIRO DE EROS,
Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2008.
155 p. ; 24 cm - Brochado.
Bibliografia, p. 149-155
Amor e erotismo, física e química, relações e convenções ¿ serão estes binómios opostos ou complementares?
Vasco Prazeres embala-nos numa esclarecedora e fascinante viagem pelo mundo infinito das relações afectivas. Nas asas de Eros, somos levados a visitar a mitologia grega, a encontrar poetas e a meditar sobre conceitos e teorias afectivas que, ao longo do tempo, fomos construindo.
Diz-nos o autor que Eros é muitas vezes tido como um instigador implacável das paixões tumultuosas. Mas será mesmo assim?
O que temos como certo é que Vasco Prazeres responde a esta e a muitas outras questões aberta e claramente, e, com a mestria que lhe é conhecida, conquista-nos pela forma inteligente e bem-disposta com que discorre sobre os temas do amor e do erotismo.
Exemplar novo.
1ª edição
€12.50
Iva e portes incluídos.
Vasco Prazeres (2008).
O voo desordeiro de Eros. Uma ode à singularidade do amor e do erotismo.
Lisboa: Dom Quixote.
Vasco Prazeres oferece-nos neste livro uma súmula de questões antigas e modernas. Fala-nos de Eros e dos seus múltiplos percursos; e opõe Eros, o deus grego do amor, a Cupido, a sua versão romana; do mesmo modo que contrapõe Afrodite a Vénus. Defende o autor que esta separação onomástica tem como justificação a maior complexidade do par helénico: ou seja, Cupido e Vénus são, simbolicamente, menos elaborados do que os seus modelos gregos. Vasco Prazeres justifica esta particularíssima posição hermenêu-tica, através do conhecimento directo das consequências publicitárias do capitalismo quase global, que nos dita os comportamentos domesticados. Percebemos a mensagem; lamentamos apenas que o ensaísta não tenha desenvolvido com maior abundância de argumentos esta cisão greco-romana. Seria interessante, por exemplo, procurar saber se Eros e Afrodite protagonizam uma sexualidade diferente da veiculada por Cupido e Vénus, não apenas na nossa contemporaneidade, mas igualmente nos espaços culturais de que são originários. E haveria aí matéria para muitas reflexões.
Mas não é nesse campo que reside o interesse do autor; isto é, Eros e Cupido, Vénus e Afrodite funcionam apenas como símbolos trans-históricos, embora seman-ticamente matizados. Mas também é verdade que referindo Longus de Lesbos, Safo, Santo Agostinho, Rousseau, Florbela Espanca e, de forma difusa, a doutrina da Igreja Católica, Vasco Prazeres manifesta uma vontade de contextualização diacrónica em que não destoariam outras referências igualmente nobres, como, por exemplo, Platão, Catulo, Horácio, Ovídio Marcial, Camões, Fernando Pessoa ou Jorge de Sena, só para referir alguns escritores que, de forma interessante e percuciente, dedicaram alguns dos seus textos à reflexão sobre os voos de Eros.
Isto são reparos menores, mas defluem do compromisso filosófico-literário que o livro de Vasco Prazeres também institui. Se citasse Catulo e Marcial, por exemplo, teria provavelmente uma concepção mais complexa do homoerotismo no mundo antigo. A palavra homossexualidade foi inventada no século XIX, e esse pormenor linguístico é muito importante. As línguas são económicas - é por isso que os sinónimos rigoro-samente não existem. Leiam-se os poetas - esses seres estranhos que tanto parecem agradar a Vasco Prazeres, e verificaremos que embora Catulo possa ter amado Juvêncio, Horácio haver eroticamente sonhado com Ligurino ou mesmo Virgílio morrer de amo-res por Aléxis, isso não é homossexualidade. É pederastia, uma «coisa sexual» muito diferente. A homossexualidade é uma «invenção» do século vinte avançado, como a afirmação sociopolítica das mulheres, ou, do mesmo modo, o reconhecimento da criança como ser humano autónomo.
Mas os voos de Eros são mais diversificados, e dessa variedade nos dá conta este livro. Vasco Prazeres fala, entre outras coisas, de casamento, várias modalidades de amor, paixão, amizade. Sabemos pela história - e salientem-se os trabalhos de Denis de Rougemont, que, curiosamente, o autor não inclui na sua demasiado selecta biblio-grafia - que a associação entre casamento e amor não tem pertinência sociocultural antes do século XX. Gregos, Romanos, Chineses ou Indianos não se casavam - alguns ainda não se casam - por amor, e muito menos por paixão. O casamento era um contrato de interesses: procriativos, económicos, religiosos e sociais. O amor, quando existia, tanto podia florescer no casamento como fora dele; mas o mais comum e desejável era estar afastado do tálamo nupcial. Evidentemente, a fundamentação contemporânea do casamento no amor levanta hoje questões que, em princípio, não existiam no passado. Nomeadamente no que diz respeito ao divórcio e às suas con-sequências. E igualmente ao desejo de «ser feliz». As pessoas querem ser felizes, e, por isso, apaixonam-se, partindo do princípio de que isso é bom, e esquecendo-se sempre de que a palavra «paixão» significa «sofrimento» (daí a «paixão de Cristo» ou o «Senhor dos Passos», isto é «o Senhor dos Sofrimentos»). E porque estão apaixo-nadas, casam-se. Ora, faz parte da natureza da paixão a sua intrínseca efemeridade. Logo, acabada a paixão, há motivo para acabar o casamento. E recomeça tudo de novo, porque quem se casa uma vez, já não sabe viver descasado. Moderno suplício de Sisifo? Parece que sim. Mas, no fundo de tudo, está sempre a procura da felicidade mais disponível. E isso constitui talvez um mito novo que caracteriza o nosso tempo. Temos de ser felizes, nem que seja à força!
Importa fazer duas pequenas notas acerca de duas questões abordadas por Vasco Prazeres: a recusa dos malefícios da masturbação, esse vício que, segundo o autor, nada tem de solipsista, porque, não diz ele, mas digo eu, Woody Allen afirmou um dia que masturbar-se era fazer amor com uma pessoa de quem gostava muito; e o poeta Alberto Pimenta escreveu um pequeno ensaio eruditíssimo, a que chamou A Metáfora Sinistra, onde desmistifica, com abundância de informação, o suposto pecado do amor próprio. Aliás, como nos recorda Vasco Prazeres, a masturbação - e não onanismo, como ele pertinentemente explica - não é um acto assim tão solitário, embora normalmente também não seja tão público como quando o filósofo Diógenes o praticava à vista dos seus concidadãos. Por um lado, digo eu de novo, com o bene-plácito de Alberto Pimenta, e deturpando abusivamente Camões, «Transforma-se o amador na coisa amada»; e por outro lado, diz o autor, o acto masturbatório é sempre imensamente povoado pela fantasia, além de poder ser praticado a dois, a três, ou em número indeterminado, porque as orgias não ficaram soterradas na decadência do Império Romano.
Uma outra nota para referir uma questão velha de milénios, mas que nem sempre, pelo menos entre nós, tem sido convenientemente estudada. Trata-se do entendimento da amizade como um dos campos onde Eros também pode voar. Sempre foi assim e, segundo parece, em todas as latitudes geográfico-culturais. Nas que nos dizem mais directamente respeito, pensemos nos pares de amigos que surgem na Bíblia - no Antigo e Novo Testamentos - nas epopeias homéricas e virgiliana, e em toda uma literatura ocidental que, desde a Idade Média até ao «campus novel», de tradição anglo-saxónica e germânica, nos tem dado obras-primas cujo eixo temático consiste na amizade eroti-zada. Os poetas portugueses Luís Miguel Nava e Jorge de Sena escreveram interessantes textos sobre esta questão, e o escritor angolano Luandino Vieira, num contexto um pouco diferente, inventou mesmo a palavra «amorizade». Em meu entender, que não sou sexólogo nem escritor, o amor e a amizade têm a mesma origem: são ambos filhos de Eros. Mas, como sabemos bem, os filhos não são todos iguais, nem seguem percursos semelhantes.
O voo de Eros, segundo o desejo humanista de Vasco Prazeres, é libérrimo. E é dessa imensa liberdade que resulta, ao mesmo tempo, o nosso fascínio e a concomitante insegurança, porquanto o deus do amor esbarra, constantemente, com os preconceitos socioculturais e religiosos que, quer queiramos quer não, enformam e restringem a nossa visão do mundo e da sexualidade. A educação, sugere Vasco Prazeres, continua a ser um meio socialmente eficaz de formatação ideológica - médica ou religiosa. Apesar de tudo, nem sempre estamos muito distantes da misoginia de Rousseau ou do mora-lismo deletério de figuras ilustres como Egas Moniz.
E o moralismo pode surgir ardilosamente nos contextos mais inofensivos. Vasco Prazeres desperta-nos para esta questão ao afirmar o seguinte: «Quando se fala, hoje, da "ocupação dos tempos livres" como estratégia para "prevenir comportamentos de risco", não estaremos muito longe do que Rousseau indicava como apropriado para o seu protegido Emílio» (Prazeres, 2008: 120). Tem razão. Machado de Assis, num dos seus contos magníficos, diz a certa altura que «a solidão é oficina de ideias». Deve, pois, ser evitada por quem quer ser um «medalhão», ou seja, uma pessoa oca, hipó-crita e destinada ao triunfo social. E Natália Correia não precisou de pedir autorização a nenhum pedopsiquiatra para afirmar convictamente que «um jovem que não tenha pensado no suicídio ou na vida monástica não é um jovem normal». Hoje, o que conta é ser saudável, e ocupar por inteiro os «tempos livres», o que, na verdade, é uma con-tradição: se os tempos são livres, por que motivo devem ser ocupados? Provavelmente para que os pais se possam ver «livres» dos filhos. Ficam felizes os pais e ficam felizes os filhos, transpirando actividades desportivas e educação para os valores e afectos. Num contexto tão higiénico, apetece, de facto, ser «doente»; e concordar com Nietzsche quando ele diz, no «Prólogo» ao seu Anticristo, que é preciso ter «inclinação para o proibido; predestinação para o labirinto».
Vasco Prazeres, honra lhe seja feita, não nos pinta os voos reais de Eros com cores deslavadas de telenovela ou programa partidário; muito pelo contrário. É claro que tem havido importantes mudanças sociopolíticas e culturais no que diz respeito aos domínios do erotismo. Mas prevalecem os discursos moralistas - religiosos ou laicos. No passado, remiam-se os pecados veterotestamentários com oportunistas e argentarias indulgências; hoje redimem-se os pecados pós-modernos com hipotecas bancárias e doses regulares de «prozac» e seus congéneres mais actualizados. Mas a noção de pecado, devidamente actualizada, continua a propagar o seu poder de condenação.
Correndo o sério risco de me transviar na interpretação, foi isto que me apeteceu escrever acerca deste livro. O autor, como médico atento e comprometido com a «coisa humana», vai manifestando veios de dúvida que desequilibram as visões mais eufóricas e triunfalistas da suposta evolução dos costumes. E é precisamente da dessintonia entre o desejo construtivo, mas idealista, e o peso insuportável da realidade quotidiana que resulta o interesse mais perdurável do livro de Vasco Prazeres. Não esperemos, por isso, respostas dadas como receitas médicas, porque elas não existem - nem aqui nem em lado nenhum. Na verdade, só existem perguntas, aqui como em todas as obras sérias. Quem tem respostas prontas para tudo está bem longe dos domínios de Eros. Ou de Minerva. Será provavelmente um cadáver adiado que talvez procrie. O que, reconheça-se sem cinismo, não é necessariamente bom. O mundo já tem gente a mais; está é mal distribuída.
O voo de Eros não pode pois ser restringido à «tara da procriação», para citar uma expressão famosa do poeta Joaquim Manuel Magalhães. Mas não pensam assim, pelo menos entre nós, os poderes políticos, legislativos ou mesmo médicos. A tradição judaico-cristã e islâmica, cuja violência pretensamente morigerante tem variado de grau ao longo dos séculos, não desapareceu nem desaparecerá nos próximos tempos. Se prestarmos atenção ao que se passa à nossa volta, depararemos, todos os dias, com afirmações de misoginia machista e falocrática, que nos fazem duvidar da bondade de todos os progressos.
Para devolver a Eros o seu oximórico e utópico voo desordeiro seria necessária uma revolução violentíssima, mais destruidora do que a filosofia rasurante de Alberto Caeiro. Embora a contragosto do título deste livro de Vasco Prazeres, o voo de Eros acaba por sempre ordeiro, ou seja, institui uma ordem própria que todos os poderes - políti-cos, religiosos, jurídicos, ou médicos - rapidamente disciplinam. Mas isto são apenas impressões minhas, sem grande fundamento científico. Derivam apenas do prazer que a leitura de O voo desordeiro de Eros me proporcionou. - António Manuel Ferreira (in: Forma Breve: revista de literatura nº 6, 2008)
MMSARD