O RAPAZ DE BOTICELLI: romance - Mafalda Ivo Cruz


Cruz, Mafalda Ivo 
- O RAPAZ DE BOTICELLI: romance
Colecção Autores de Língua Portuguesa, 
Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2002.
259 p. ; 21 cm - Brochado.
(...) Em O Rapaz de Botticelli, Mafalda Ivo Cruz leva a construção da narrativa híbrida ao extremo. A partir da perspectiva inicial da personagem Mariana Matias, escritora e jornalista, a autora constrói – e desconstrói – a trajetória do bailarino inglês Efron Cage, personagem inspirada nas histórias de vida de Nijinski e Nureyev. Mariana é aficcionada pela arte em todas as suas formas – o que vai sendo revelado através das inúmeras e variadas referências que emolduram as investidas filosóficas da personagem, e é a partir dessa situação que a autora faz uma análise do sentido do artista e da massificação artística nos tempos atuais, e vai além: coloca o indivíduo a mercê da condição solitária de sua própria expressividade. Mariana então identifica-se fortemente com a história do bailarino, com a força expressiva de sua dança, apaixona-se pelo mito glorificado e tenta encontrá-lo de todas as formas, não como uma simples fã, mas como alguém que procura encontrar sentido nas próprias inquietações existenciais e artísticas. A imagem de Efron Cage vai sendo construída através de diversos relatos que estruturam a primeira parte da obra, e a personagem vai tomando forma através do preenchimento de significados atribuído pelas outras personagens, pelas impressões de Mariana e pelas próprias impressões do leitor. Há um grande espaço para conexões e reflexões por parte de quem lê, considerando-se a interpretação das referências intertextuais e do jogo explicitamente polifônico. Há a quase ausência de marcas formais no sentido de organização do discurso, o que confere ao leitor o poder de decidir através de suas considerações lógicas a quem ou a quê determinadas informações são atribuídas.
As referências iniciais que se tem sobre o bailarino inglês são as mesmas colocadas pela personagem Mariana: Efron Cage, que mudara-se para Portugal durante a década de setenta no auge de sua carreira, vive afastado da dança e escondido de todos, trabalhando como coveiro na solidão de um cemitério onde treina antigos passos de dança. Nos encontros e desencontros da jornalista com o bailarino, nos retratos que o revelam, literais ou descritivos, e no romance que acontece entre os dois há espaço para a discussão sobre a dança, a glorificação, a dura realidade dos artistas, a loucura. A autora traz à tona um questionamento que permeia toda a obra, aparecendo diversas vezes de forma explícita através da seguinte frase: “O que são artistas? Mas o que são artistas?”. Assim, sem poupar o tom melancólico proposto por Mafalda Ivo Cruz, O Rapaz de Botticelli se transforma numa análise da situação do abandono, decadência e solidão a que chegaram muitos daqueles que dedicaram toda sua vida à arte- (...) - retirado de "A construção da personagem e o hibridismo narrativo: O rapaz de Botticelli, de Mafalda Cruz|" - Luciana Éboli
Excelente exemplar..
1ª edição
€15.00
Iva e portes incluídos.

MMSARD